20 novembro 2013

Esconderijos

Carolina, com o seu jeito espevitado de ser, mais parecia um rapaz. Escalava as árvores do sítio, corria atrás dos porcos rosados, gargalhava rolando pela grama e usava as mãos como talheres, tal como aprendera com Sinhá Paula. Dona Ana, sua avó, tentara de todo jeito fazer com que a neta se comportasse como uma dama, mas aquela tarefa estava custando muita paciência e era de pouco retorno.
Em meados de setembro daquele ano, aqueles cabelos negros e olhos travessos surpreenderam a todos na casa, sobretudo à Dona Ana. Carolina estava mais retraída e comedida, coisa que nunca fora. Passava a maior tempo do dia no quarto, deitada na cama, encarando o teto em um espécie de sonho acordado. Ninguém entendia tão repentino comportamento, pois a menina recusava falar. Construíra uma barreira de isolamento em volta de si. E se identificara de tal forma com ela que era como ela fizesse parte do seu próprio esqueleto, sua própria concha.
Escondeu-se. Porque tinha que se apaixonar? Não já estava ela, desde os oito anos de idade, prometida à outra pessoa?
Por mais que lhe perguntassem, não podia contar aquilo a ninguém. Não entenderiam que, quando era apenas uma criança, um velho moribundo profetizou seu casamento com um menino que acabara de conhecer. Não entenderiam os breves, o camafeu e nem as juras caladas.
Decidiu que ia ficar ali, camuflada, o resto daquele fim de semana. Domingos eram dias sempre calmos, sobretudo em Paquetá, e decidiu que não daria chances ao acaso de estragar aquela paz.
Adormeceu.

O Sol já tinha se posto há muito quando Augusto decidiu ir embora. Esperou cicno horas além do combinado, com a tola esperança de que ela aparecesse. Caminhava com um andar triste, quase desacreditado, daqueles que só quem já esperou em vão entende. Pressionou com força o velho botão de esmeralda. Pela primeira vez, tivera a impressão de ter achado o seu camafeu.
          A balsa atracou rapidamente, tal como as oportunidades foram perdidas. No curto trajeto de Paquetá até o Rio de Janeiro, Augusto adormeceu e sonhou com o velho moribundo, a garota de oito anos e a profecia que buscava.

*conto livremente baseado no livro "A Moreninha".

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