01 maio 2014

Dual

A farda da balconista, uma meia-calça desgastada e um vestido que teimava em lhe acentuar somente as suas imperfeições, deixava claro que Clarissa trabalha ali. Atlântida Variedades. Jaime observou bem esse e outros detalhes da moça, assim que entrou no estabelecimento.

Alto, de cabelos ralos e olhar acinzentado, era imagem fácil nas colunas sociais e entrevistas midiáticas. Não apenas por ser um rico empresário do ramo de transportes, mas sim pelas políticas socialistas que pregava em suas aparições. Ela o reconhecera na hora.

Clarissa, tão surpresa quanto enjoada de ver aquela figura em sua loja, recordou algumas palavras do último discurso dele que lera. Algo como “o bem estar social deve ser a meta dos governantes... de que adianta uma mente pensante, com tantas bocas passando fome no mundo... e, sim!, claro, o coletivo deve sempre estar à frente do individual”. Ela estremecia só de lembrar.

Ele encarou-a, antes e fazer seu pedido, e percebeu um leve lampejar em sua face. Nada anormal, julgara, afinal as pessoas não estavam acostumadas a ver famosos comprando pilhas na rua.  Era pelo bem dessas pessoas que ele lutava: pelos fracos, que não possuíam voz, bens ou mente fértil. Pelos incapazes. Se não nascemos todos iguais, temos que nos tornar.. em nome do bem estar social.


Era por ela que ele fazia aquilo, por pessoas como ela.

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Editado por Agnes Carvalho. Imagens de tema por andynwt. Tecnologia do Blogger.

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