02 dezembro 2013

Doces Palavras

Isac era um menino muito levado de seis anos de idade. Travesso, não parava quieto, em casa ou na rua. Até o dia em que descobriu as palavras e se apaixonou por elas. Começou a passar a maior parte do tempo na biblioteca de sua mãe, encarando páginas completamente preenchidas por símbolos que ainda não conseguia decifrar por completo.
Intrigada, sua mãe tentava compreender aquela súbita mudança no comportamento do filho. Dias antes, ele inventava qualquer desculpa para passar a tarde no parque com os amigos, e ignorava os esforços dela, que insistia em lhe ensinar as primeiras letras.
Quando ela comentou com o esposo sobre ao inesperada nova rotina do menino, ele tentou tranquilizá-la: era só uma fase; devia ser a filosofia da escola finalmente fazendo efeito; e, afinal, porque ela estava reclamando? Não era aquele o seu sonho? Oras!
“Mãe, qual a diferença entre hora com H e ora sem H?”
Era a primeira vez que ele lhe perguntava algo espontaneamente, e ela resolveu por fim acreditar na teoria do esposo. Finalmente seu filho mostrava-se interessado pelas palavras, embora ela não soubesse o que despertou nele tamanha ânsia.
“Mãe, o que significa ansiedade?”
Assim, as tardes de jogos de rua deram lugar à incontáveis perguntas e questionamentos, conduzidos pela curiosidade daquele garoto. Isac aprendeu a ler e a escrever rapidamente, e só encontrava os amiguinhos pela manhã, na escola.
“Reunião escolar, dia 18, às oito horas”, Isac leu para a mãe o bilhete que recebera da professora. “Amanhã.” Antes de subir para o quarto e trocar de roupa, fez mais duas perguntas à mãe.
“Mãe, o que é suspensão? E cárie?!”
Seguiram juntos para a escola na manhã seguinte.
“Seu filho”, disse a professora, “está vendendo palavras.”
Ao perceber no confuso semblante da mãe que ela não havia entendido nada do que acabara de dizer, a professora continuou.
“Descobrimos que ele se gaba com os coleguinhas de ter a mãe mais inteligente do mundo. Que cobra uma bala por cada pergunta respondida. Por sua mãe. O que a senhora tem a dizer sobre isto?”
*Conto produzido na oficina de escrita criativa ministrada pela contista Katherine Funke

 
Déa e eu na aula de contos, por K. Funke.

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