02 dezembro 2013

nossa garoa

      Outro dia peguei-o observando a janela. Seu olhar não estava tão distante a ponto que não pudesse refletir para mim a dança da chuva. Aquela era a minha janela preferida. Lembro-me quanto me debrucei nela pela primeira vez, há quase vinte anos.

Há quase vinte anos, estávamos em junho, e caía uma garoa fina lá fora. O restaurante, com seus estofados antigos e com cheiro de mofo, não era muito bom, muito menos a comida, mas quase não notamos.
“Elas dizem muito sobre você”, comentei, enquanto acariciava levemente seu rosto pela primeira vez. Sua pele era macia, embora tivesse percebido certa rigidez inicial ao sentir o meu toque. Nada comentei.
“Elas quem?”, perguntou, curioso, ao mesmo tempo em que tirou minha mão do seu rosto e a acariciou, carinhoso.
“Ninguém. Esquece”, desconversei, sorrindo. Não precisava confessar tão abertamente o meu fetiche por olhos. Isso não tinha importância. Importante era que aqueles olhos fossem sempre para mim a vitrine de suas emoções.

 “Acho que estou um pouco saudosa hoje, meu amor”, disse, tocando levemente seu ombro nu. Sentando ali, imóvel, no parapeito da janela, ele era personificação dos meus sonhos de adolescente; porém, a fase em que eu me contentava apenas com sonhos platônicos já passara há muito, não tinha mais tempo para jogos. Com efeito, a minha fala o fez despertar de seu transe. Seus olhos me encararam com ternura.
“Meu bem, sente-se aqui! Veja que beleza de chuva...” Então, puxou-me pela cintura, conduzindo-me para seu colo. Enfim, depois da seca, estávamos sendo regados outra vez.

Contra tudo, só saímos do restaurante quase à uma da manhã. Esperamos em vão a chuva passar, até percebermos que os planos dela não eram os mesmos que os nossos. Contamos até dez e corremos pelas ruas escuras de Santiago de Compostela. Naqueles meses, morávamos na Espanha. Eu, intercambista. Ele, biomédico pesquisador. Corremos feitos bobos pelas ruas históricas e estreitas daquele cantinho da Galícia.

“Sabe o que eu mais gosto quando fazemos as pazes?” Ele me perguntou, com a mão na minha barriga e respiração lenta.
“De correr na chuva de mãos dadas?”
Na casa vizinha, uma música começou a tocar. Ouvíamos em tom baixíssimo, mas ouvíamos. Pela linha de riso que os lábios deles formaram, reconheci: Mercedes Sosa. A única que estava com ele há mais tempo do que eu.
Pero no cambia mi amor
por mas lejos que me encuentre
ni el recuerdo ni el dolor
de mi pueblo y de mi gente

“Se todos os vizinhos tivessem bom gosto como o Juan, todas as brigas de condôminos seriam apaziguadas. Mas não, não é correr na chuva, meu bem. Quer dizer, é sempre bom correr na chuva contigo” – disse, ao mesmo tempo em que me puxou para dançar. “Gosto da sensação de termos fechado janelas que não nos levam a lugar nenhum.”
Permanecemos em pé, abraçados, por um longo período, mesmo depois que a música acabou.

 “Gosto de poder abrir meus olhos e te ver ao meu lado”.
Foi a sua primeira fala romântica dirigida a mim, quando despertamos juntos pela primeira vez. Do lado oposto da janela, caía um aguaceiro torrencial. Era então agosto, e as chuvas típicas da região denunciavam o fim do verão. Logo viria o inverno, e aquele quadro se tornaria mais frequente. A melhor estação da minha vida.
Passei a viver mais no seu apartamento do que no meu. Carolina e Louise, minhas companheiras de piso, costumavam ameaçar alugar meu quarto, já que eu nunca estava em casa. Não ligava. Naquele tempo, só pensava naqueles olhos inebriantes de beijos leves e infinitos. Através deles, só via chuva e promessa de vida.
“Eu o amo”, confidencie à Carolina. Tinha que contar para alguém.
“Isso é loucura”, bradou.  “Em três meses você terá de voltar para o Brasil e ele continuará aqui, com suas pesquisas. Em que mundo vocês acham que isso dará certo?”
               
Sorri ao ouvi-lo dizer aquilo. Sentia exatamente a mesma coisa. Nos últimos dias de julho, desde que chegara de uma recém-visita aos meus pais, brigávamos todos os dias, como duas crianças teimosas. Essas brigas se intensificaram no mês seguinte, e não foi a primeira vez que pensei em terminar com tudo aquilo. Voltar para o Brasil mais uma vez.
             
     Em que mundo aquilo daria certo? Carolina e seu bom senso tinham razão. Em dezembro, retornei ao Brasil. Aquele relacionamento era impossível. À princípio, tudo me lembrava ele. Em todos os lugares, via o olhar cabisbaixo que me levara ao aeroporto. Estava ficando louca. Falávamo-nos com frequência por telefone, mas era caro e ele não tinha linha em casa. Também me enviava cartas. Através dela, soube que ele tinha aprendido a cozinhar tortillas – iria um dia fazer para mim -, que as chuvas incessantes continuavam e que o espaço vazio na sua cama incomodava-o cada vez mais.
               
Não respondi nenhuma carta. Não tinha estômago. Já era difícil falar com ele no telefone, imagina registrar tudo aquilo que sentia? Estava seca, tal como o tempo em João Pessoa. No Natal daquele ano, recebi através do carteiro uma caixa de chocolates belga, com um cartão que dizia, entre outras palavras, como tudo lá lembrava a mim para ele, e sobre como ele sentia a minha falta. Comi os chocolates com a mesma avidez que rasguei o cartão em pedacinhos. Se o modo como nos relacionávamos naquele momento fosse chuva, eu era a garoa, e ele a tempestade.
Logo após o ano novo, decidi que era hora de me libertar de algumas amarras. Me permiti sair, beber com amigos, acompanhada de uma sensação de liberdade que não sentia há meses.

Conforme setembro chegava, as coisas melhoravam entre nós. Sempre fora assim. Ele ficava mais carinhoso, eu mais aberta.
“Quer um pouco de sopa de abóbora? A Ângela ontem congelou um pouco para nós.” – disse, desvencilhando-me do seu corpo.
“Você bem sabe que eu não recuso nada que a Ângela faça!”
“É, bem sei! Por isso que você não reclamou da minha ausência durante esses meses todos que passamos separados dessa vez!”, brinquei.

“Queria te fazer uma surpresa”, ele me disse, entre risos, quando eu abri a porta da minha casa. Era carnaval, e ele aparentemente combinara tudo com meus pais.  Pisquei duas vezes, incrédula.
“O que foi, não gostou? Não vai me dar, ao menos, um abraço?”, suas janelas me encaravam, um par de gêmeas semicerradas.
Naquele momento, entretanto, ficou claro para mim que não era a distância que estava complicando nosso relacionamento. Eu era. Já não o queria. Todo o seu carinho e cuidado, não eram pra mim. Combinavam com o meu eu galego, não com o meu eu brasileiro. Como dizer isso? Como confessar que, em todas ligações que fingi não estar em casa, a Ângela, nossa velha empregada, me acobertara? Santa Ângela. Como dizer que já tinha o carnaval todo programado com as meninas: as praias, as festas, as fantasias?
Abracei com força, como se aquele ato pudesse ser capaz de eliminar qualquer sensação negativa. Eu o amava há dois meses, havia mudado tanto? Senti calor, mas acho que era da estação.
Ele instalou-se em minha casa, e tentei continuar o que fora interrompido na Espanha. Tinha apenas dez dias para curar aquela relação. Íamos juntos para todos os lugares. Apresentei ele à minha família, aos meus amigos.  Porém, ele também começou a mudar. Já no segundo dia, estava mais calado e introspectivo. No terceiro, quase não tínhamos assunto. E no quarto, começou a ciumar de meus amigos. Os dias estavam cada vez mais áridos: a discussões eram cada vez mais agressivas e calorosas, e os motivos, os mais tolos possíveis.
Terminamos. Um dia antes dele regressar à Espanha, trocamos acusações horrendas e decidi, em prantos, que não queria mais aquilo para mim. Ele não discordou. Saiu e não regressou mais até o momento do voo, para se despedir de meus pais.

Trouxe a Ângela para a Espanha depois de uma de minhas temporadas no Brasil. Quando eu era ainda uma criança, ela contava-me todas as noites histórias de princesas que viviam em castelos europeus. Decidi que ela deveria ter a oportunidade de visitar seus sonhados castelos.
Costumava ir para casa todos os anos em junho, para visitar meus pais, resolver pendências no consulado e na faculdade. Demorava, em média, três meses. Era um período complicado para nós, mas diferente da primeira vez, eu sabia que iria regressar, e chegaria junto com as primeiras gotas do outono.

Não tive notícias dele por treze anos. Nesse intervalo, concluí a minha graduação em Geografia, namorei outros caras, saí de casa, mudei de cidade. Segui em frente. Dizem que o primeiro amor nunca esquecemos, mas o meu perdi em meio à minha bagunça.
Em 2006, fui convidada a palestrar pela faculdade que lecionava em um evento internacional em Zurique. Participava de uma mesa redonda sobre o efeito do aquecimento global nos níveis de precipitação de algumas localidades do mundo, quando percebi que era observada. Estava visivelmente mais velho, com um punhado de cabelos brancos crescendo e indícios de futuras entradas no couro cabeludo. Mesmo assim, o reconheci.
     No final da programação do dia, nos reencontramos. Descobri que ele estava ali porque era um dos pesquisadores homenageados do evento. Falei um pouco sobre mim, e perguntei como estava minha querida Espanha. Ele me convidou para um café fora do hotel. Aceitei, sabendo que não conseguiria dizer não. Àquela altura, as lembranças de Santiago já me embalavam. Deus, o que estava acontecendo comigo?

     Ele puxou a cadeira para que eu sentasse, e foi buscar a tigela com a sopa. Adorava a nossa cozinha: era ampla, clara, e, depois da última reforma, tinha uma claraboia. Às vezes ia ali sem motivo, só para observar o céu cinzento.
     “Eu ainda posso me servir, sabia?” , protestei, observando-o de soslaio.
     “Não, não pode” , disse, ao me entregar a comida. Sentou-se à minha frente, e segurou minhas mãos. As gotas de chuva que caiam sobre as telhas cerâmicas proporcionavam uma trilha sonora aconchegante para o nosso jantar. “Enquanto você estiver carregando a minha semente no ventre, será mimada em todos os momentos do dia.”
    
Ao chegarmos à recepção do hotel, vislumbramos o que acontecia lá fora, através das altas esquadrias de vidro. Uma chuva forte caía, amparada por raios e estrondosos trovões em intervalos de tempo regulares. Já não tinha dúvidas do que aconteceria.
     Semanas depois, estava de mudança para Santiago. Meus pais não entenderam quando lhes contei de como havia me apaixonado pelo mesmo homem, e muito menos quando informei que estava de mudança definitiva para a Espanha. Era lá que dávamos certo, só lá. E somente nos meses chuvosos. Era como se água da chuva fosse capaz de purificar aquele relacionamento, renovando-o e levando consigo todas as impurezas acumuladas.


     Estava grávida. Três meses. Descobrimos depois da última temporada de calorosas discussões. As temporadas de inconstâncias teriam, por fim, um término. Logo, ela chegaria para nos curar definitivamente. Ela, nossa garoa.



*Conto final desenvolvido na oficina de escrita criativa, ministrada por Katherine Funke.


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