03 dezembro 2013

engarrafamento

O Fiat Uno vermelho estava puto com toda aquela demora. Vinte e oito minutos, e só andara o suficiente para ultrapassar a faixa de pedestre sobre a qual, à contragosto, havia parado em cima.

Sábado à tarde, e todo aquele engarrafamento na avenida. Não fazia sentido. Com certeza acontecera algum acidente grave. De repente, sentiu-se mal por estar reclamando: alguém podia estar morto.

Ouviu a S10 à sua frente desligar o motor. Porra, esse era definitivamente um mau sinal. Com um monstro daquele tamanho à sua frente, não via nada, de modo que era obrigado a aceitar os sinais transmitidos pela ignição.

Desligou também. Mas deixou o sistema elétrico ativo. O calor estava de matar. Teve pena do Renault Sandero ao seu lado, que jazia com as janelas abertas.

Queria água, mas todos os ambulantes pareciam ter evaporado em meio àquela quentura. Ou talvez eles estivessem, juntos, manifestando lá na frente, por mais benefícios na profissão, ou sei lá. Talvez fosse isso, manifestar estava em alta.

Ligou o rádio, esperançoso por ouvir algo que justificasse aquele trânsito caótico na cidade. Visita do papa, copa do mundo surpresa, distribuição gratuita de imóveis. Não encontrou nada além de um “em minutos, notícias do trânsito”. Os minutos passaram, as propagandas começaram a se repetir. Desligou.

Subitamente, a S10 deu partida. Antes que o Uno pensassem em fazer o mesmo, parou. Droga. A sorte foi que passou um ambulante bem na hora. Manifestação deles, ao menos, não era.

Comprou a água. O vendedor o aconselhou a comprar mais duas, pois alguém tinha se suicidado na passarela e iam demorar para liberar a avenida. Comprou mais uma só, por segurança.

Oras, isso era hora de suicídio?

Oitenta e sete minutos. Estava atrasado há oitenta e sete minutos. Um menino, aparentando não mais que doze anos, passou vendendo amendoins. Comprou dois pacotes, mas foi aconselhado à comprar mais, já que o recapeamento da via tinha travado todo o fluxo.

Se o momento fosse outro, sentiria-se impelido a também aconselhar o menino, e pergunta-lhe sobre a família, a escola e as notas. Mas a novidade do recapeamento, com suas máquinas e operários, ocupou seus pensamentos.

O garoto foi embora, e depois de mais uns vinte e dois  minutos parado, o Uno começou a andar. Nos primeiros três minutos, não passou da primeira marcha. Mais lento do que as pessoas que caminhavam na calçada, mas pelo menos já era algo.

Mal acreditou quando passou a segunda marcha. Logo, já estava com 35km/h. Abriu a janela, de tão saudoso que estava da sensação do vento. Acelorou mais, e mais, e mais, e quase não acreditou quando não encontrou nem acidentes, nem mortos, nem máquinas.








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Editado por Agnes Carvalho. Imagens de tema por andynwt. Tecnologia do Blogger.

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