01 maio 2014

Conclusão

Se
encontraram,
conversaram,
divergiram,
espernearam,
brigaram,
choraram
E,
no final,
perceberam
que estavam falando
a mesma coisa.
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Dual

A farda da balconista, uma meia-calça desgastada e um vestido que teimava em lhe acentuar somente as suas imperfeições, deixava claro que Clarissa trabalha ali. Atlântida Variedades. Jaime observou bem esse e outros detalhes da moça, assim que entrou no estabelecimento.

Alto, de cabelos ralos e olhar acinzentado, era imagem fácil nas colunas sociais e entrevistas midiáticas. Não apenas por ser um rico empresário do ramo de transportes, mas sim pelas políticas socialistas que pregava em suas aparições. Ela o reconhecera na hora.

Clarissa, tão surpresa quanto enjoada de ver aquela figura em sua loja, recordou algumas palavras do último discurso dele que lera. Algo como “o bem estar social deve ser a meta dos governantes... de que adianta uma mente pensante, com tantas bocas passando fome no mundo... e, sim!, claro, o coletivo deve sempre estar à frente do individual”. Ela estremecia só de lembrar.

Ele encarou-a, antes e fazer seu pedido, e percebeu um leve lampejar em sua face. Nada anormal, julgara, afinal as pessoas não estavam acostumadas a ver famosos comprando pilhas na rua.  Era pelo bem dessas pessoas que ele lutava: pelos fracos, que não possuíam voz, bens ou mente fértil. Pelos incapazes. Se não nascemos todos iguais, temos que nos tornar.. em nome do bem estar social.


Era por ela que ele fazia aquilo, por pessoas como ela.
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27 fevereiro 2014

Eu- lírico e comentários

Tem alguns comentários inúteis que arquivo inconscientemente nas minhas gavetas mentais. Por exemplo, lembro quando tinha dez anos e minha avó me recriminou por usar uma blusa de tecido furado para ir ao clube – e isso já deve dar à vocês uma ideia do quão conservadora Dona Aurora era.

Na onda dos tais comentários, lembrei  de uma grande amiga esses dias. Estava folheando alguns dos lançamentos da Novo Conceito, e dois me chamaram a atenção por um motivo:  são escritorAs dando voz à personagens masculinos. Os livros em questão foram: Seis coisas impossíveis e Quando eu era Joe.

Carolina era metida à escritora que nem eu ainda insisto em ser, e ao ler uma fanfic de um amigo em comum comentou: “Nossa, como é estranho saber que um homem está escrevendo pensamentos de uma mulher.” Eu nunca tinha reparado nisso até o momento. E desde então nunca deixei de reparar – observem como um comentário bobo é capaz de influenciar uma vida literária inteira.

É estranho? Crescemos ouvindo dizer que homens e mulheres são bichos diferentes, que vieram de planetas diferentes, e que nunca irão se entender. Entretanto, a literatura quebra esses dogmas e paradigmas ao nos revelar que podemos ser mais iguais do que imaginamos. O eu-lírico pode ser apenas o sentimento. E sentimento, meus caros... sentimento não tem gênero, mesmo que tenha nome.

Se eu pudesse conversar com a Carolina agora, citaria exemplos como o Chico Buarque,  John Green, e tantos outros que acertadamente se apropriam do eu-lírico feminino. Ou o contrário.  Talvez ela até já não ache tão estranho assim, talvez ela mesma esteja escrevendo seus personagens masculinos em primeira-pessoa...


... mas não é tão incrível como alguns comentários... simplesmente... nos marcam? 
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14 dezembro 2013

Dente por dente

Quando li o primeiro livro da trilogia escrita por Jenny Han e Siobhan Vivian, eu não esperava nada demais. A sinopse, a capa... nada era atrativo de fato para mim. Mas eis que dei uma chance e o livro revelou-se uma grata surpresa para passar o tempo.

Recentemente, recebi da Novo Conceito a continuação do livro. Fiquei impressionada pela rapidez da publicação, sério! É até bom, assim os personagens e acontecimentos estavam fresquinhos em minha memória. Só faltou um livro um grau mais detalhado de revisão, pois os errinhos característicos da pressa estavam lá também.  

Dente por dente continua a história depois da festa de Homecoming. As três adolescentes estão preocupadas e tensas com os desdobramentos que os acontecimentos daquela noite podem trazer. Será que alguém descobrirá tudo? Os planos, a ligação entre elas? Irão presas?

É um livro em que somos convidados a conhecer melhor as protagonistas. Lillia tem que lidar com uma Rennie cada vez mais ciumenta e invejosa. Mary desespera-se ao perceber que Reeve ainda não se sente totalmente culpado pelo que fez. E Kat... bom, Kat gosta desses joguinhos.

Mesmo com o desastroso Homecoming, elas não se aquietam. Decidem, por fim, dar uma última cartada. Selar a amizade... ou não.

As primeiras páginas do livro são um pouco maçantes, recheadas de lamentações e lamúrias. Porém, conforme a história avança, atinge a mesma velocidade do livro anterior, te conquista de vez e PAM! Acelera. Supera, sem sombra de dúvidas, Olho por olho.

Sabe aquela lei da física que diz que toda ação tem uma reação? Pois é. Olho por olho, dente por dente. E que venha Fogo por fogo!


FICHA
Autores: JENNY HAN | SIOBHAN VIVIAN
  • Título: Dente por Dente
  • Selo: NOVO CONCEITO
  • Ano: 2013

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09 dezembro 2013

de coração para coração

                FATO NÚMERO 01: sick-lits¹ estão na moda. Para aqueles que não estão familiarizados com esse termo, explico:  literatura enferma, literalmente. São livros voltados para jovens envolvendo histórias de pacientes com doenças. Daí temos: A Culpa é das Estrelas, Extraordinário, Antes de Morrer, etc. São,  basicamente, dramas adolescentes que resolveram extrapolar o mundo dos primeiros amores. Neles, as narrativas são mais down e o leitor, inevitavelmente, se apega a um personagem que não sabe se estará vivo até o fim do livro.
                FATO NÚMERO 02: de coração para coração é mais um que tenta pegar carona nessa nova tendência literária. Segundo a orelha do livro, a autora sempre escreveu sobre personagens com doenças crônicas ou em fases terminais, mas como ela é completamente desconhecida no Brasil, é óbvio que só foi lançado por aqui por modinha.



        A trama se propõe a falar sobre perda, amor e renovação. Gira em torno de três personagens: Elowyn, Kassey e Arabeth. Elowyn e Kassey são melhores amigas, enquanto Arabeth nunca teve a sorte de ser amiga de ninguém. A vida das três é, repentinamente, unida de uma forma bastante trágica e inimaginável, e os destinos delas se confundem.    
Apesar da capa linda que a Novo Conceito preparou e da edição impecável, é aquele tipo de história fraca para durar mais de 200 páginas. Só existe um acontecimento extraordinário no livro, e isso é tão claro que o próprio resumo da editora no fundo entrega o livro todo de cara – porque, claramente, eles não tinham mais nada sobre o que falar.
É uma leitura rápida (01 noite!), prova de que falta um pouco mais de consistência e substância. O livro não tem a pretensão de ter mistério nenhum, o que é uma pena, pois o leitor não é convidado a supor ou imaginar nada, está tudo ali tão claro que chega até doer. O tema sugere possibilidades inúmeras, e nenhuma dela é agarrada de fato pela autora. Uma pena. Resumindo: tudo poderia ter sido melhor explorado, e muito menos poderia ter sido dito.


¹ Saiba mais sobre sick-lit aqui.
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03 dezembro 2013

engarrafamento

O Fiat Uno vermelho estava puto com toda aquela demora. Vinte e oito minutos, e só andara o suficiente para ultrapassar a faixa de pedestre sobre a qual, à contragosto, havia parado em cima.

Sábado à tarde, e todo aquele engarrafamento na avenida. Não fazia sentido. Com certeza acontecera algum acidente grave. De repente, sentiu-se mal por estar reclamando: alguém podia estar morto.

Ouviu a S10 à sua frente desligar o motor. Porra, esse era definitivamente um mau sinal. Com um monstro daquele tamanho à sua frente, não via nada, de modo que era obrigado a aceitar os sinais transmitidos pela ignição.

Desligou também. Mas deixou o sistema elétrico ativo. O calor estava de matar. Teve pena do Renault Sandero ao seu lado, que jazia com as janelas abertas.

Queria água, mas todos os ambulantes pareciam ter evaporado em meio àquela quentura. Ou talvez eles estivessem, juntos, manifestando lá na frente, por mais benefícios na profissão, ou sei lá. Talvez fosse isso, manifestar estava em alta.

Ligou o rádio, esperançoso por ouvir algo que justificasse aquele trânsito caótico na cidade. Visita do papa, copa do mundo surpresa, distribuição gratuita de imóveis. Não encontrou nada além de um “em minutos, notícias do trânsito”. Os minutos passaram, as propagandas começaram a se repetir. Desligou.

Subitamente, a S10 deu partida. Antes que o Uno pensassem em fazer o mesmo, parou. Droga. A sorte foi que passou um ambulante bem na hora. Manifestação deles, ao menos, não era.

Comprou a água. O vendedor o aconselhou a comprar mais duas, pois alguém tinha se suicidado na passarela e iam demorar para liberar a avenida. Comprou mais uma só, por segurança.

Oras, isso era hora de suicídio?

Oitenta e sete minutos. Estava atrasado há oitenta e sete minutos. Um menino, aparentando não mais que doze anos, passou vendendo amendoins. Comprou dois pacotes, mas foi aconselhado à comprar mais, já que o recapeamento da via tinha travado todo o fluxo.

Se o momento fosse outro, sentiria-se impelido a também aconselhar o menino, e pergunta-lhe sobre a família, a escola e as notas. Mas a novidade do recapeamento, com suas máquinas e operários, ocupou seus pensamentos.

O garoto foi embora, e depois de mais uns vinte e dois  minutos parado, o Uno começou a andar. Nos primeiros três minutos, não passou da primeira marcha. Mais lento do que as pessoas que caminhavam na calçada, mas pelo menos já era algo.

Mal acreditou quando passou a segunda marcha. Logo, já estava com 35km/h. Abriu a janela, de tão saudoso que estava da sensação do vento. Acelorou mais, e mais, e mais, e quase não acreditou quando não encontrou nem acidentes, nem mortos, nem máquinas.








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02 dezembro 2013

nossa garoa

      Outro dia peguei-o observando a janela. Seu olhar não estava tão distante a ponto que não pudesse refletir para mim a dança da chuva. Aquela era a minha janela preferida. Lembro-me quanto me debrucei nela pela primeira vez, há quase vinte anos.

Há quase vinte anos, estávamos em junho, e caía uma garoa fina lá fora. O restaurante, com seus estofados antigos e com cheiro de mofo, não era muito bom, muito menos a comida, mas quase não notamos.
“Elas dizem muito sobre você”, comentei, enquanto acariciava levemente seu rosto pela primeira vez. Sua pele era macia, embora tivesse percebido certa rigidez inicial ao sentir o meu toque. Nada comentei.
“Elas quem?”, perguntou, curioso, ao mesmo tempo em que tirou minha mão do seu rosto e a acariciou, carinhoso.
“Ninguém. Esquece”, desconversei, sorrindo. Não precisava confessar tão abertamente o meu fetiche por olhos. Isso não tinha importância. Importante era que aqueles olhos fossem sempre para mim a vitrine de suas emoções.

 “Acho que estou um pouco saudosa hoje, meu amor”, disse, tocando levemente seu ombro nu. Sentando ali, imóvel, no parapeito da janela, ele era personificação dos meus sonhos de adolescente; porém, a fase em que eu me contentava apenas com sonhos platônicos já passara há muito, não tinha mais tempo para jogos. Com efeito, a minha fala o fez despertar de seu transe. Seus olhos me encararam com ternura.
“Meu bem, sente-se aqui! Veja que beleza de chuva...” Então, puxou-me pela cintura, conduzindo-me para seu colo. Enfim, depois da seca, estávamos sendo regados outra vez.

Contra tudo, só saímos do restaurante quase à uma da manhã. Esperamos em vão a chuva passar, até percebermos que os planos dela não eram os mesmos que os nossos. Contamos até dez e corremos pelas ruas escuras de Santiago de Compostela. Naqueles meses, morávamos na Espanha. Eu, intercambista. Ele, biomédico pesquisador. Corremos feitos bobos pelas ruas históricas e estreitas daquele cantinho da Galícia.

“Sabe o que eu mais gosto quando fazemos as pazes?” Ele me perguntou, com a mão na minha barriga e respiração lenta.
“De correr na chuva de mãos dadas?”
Na casa vizinha, uma música começou a tocar. Ouvíamos em tom baixíssimo, mas ouvíamos. Pela linha de riso que os lábios deles formaram, reconheci: Mercedes Sosa. A única que estava com ele há mais tempo do que eu.
Pero no cambia mi amor
por mas lejos que me encuentre
ni el recuerdo ni el dolor
de mi pueblo y de mi gente

“Se todos os vizinhos tivessem bom gosto como o Juan, todas as brigas de condôminos seriam apaziguadas. Mas não, não é correr na chuva, meu bem. Quer dizer, é sempre bom correr na chuva contigo” – disse, ao mesmo tempo em que me puxou para dançar. “Gosto da sensação de termos fechado janelas que não nos levam a lugar nenhum.”
Permanecemos em pé, abraçados, por um longo período, mesmo depois que a música acabou.

 “Gosto de poder abrir meus olhos e te ver ao meu lado”.
Foi a sua primeira fala romântica dirigida a mim, quando despertamos juntos pela primeira vez. Do lado oposto da janela, caía um aguaceiro torrencial. Era então agosto, e as chuvas típicas da região denunciavam o fim do verão. Logo viria o inverno, e aquele quadro se tornaria mais frequente. A melhor estação da minha vida.
Passei a viver mais no seu apartamento do que no meu. Carolina e Louise, minhas companheiras de piso, costumavam ameaçar alugar meu quarto, já que eu nunca estava em casa. Não ligava. Naquele tempo, só pensava naqueles olhos inebriantes de beijos leves e infinitos. Através deles, só via chuva e promessa de vida.
“Eu o amo”, confidencie à Carolina. Tinha que contar para alguém.
“Isso é loucura”, bradou.  “Em três meses você terá de voltar para o Brasil e ele continuará aqui, com suas pesquisas. Em que mundo vocês acham que isso dará certo?”
               
Sorri ao ouvi-lo dizer aquilo. Sentia exatamente a mesma coisa. Nos últimos dias de julho, desde que chegara de uma recém-visita aos meus pais, brigávamos todos os dias, como duas crianças teimosas. Essas brigas se intensificaram no mês seguinte, e não foi a primeira vez que pensei em terminar com tudo aquilo. Voltar para o Brasil mais uma vez.
             
     Em que mundo aquilo daria certo? Carolina e seu bom senso tinham razão. Em dezembro, retornei ao Brasil. Aquele relacionamento era impossível. À princípio, tudo me lembrava ele. Em todos os lugares, via o olhar cabisbaixo que me levara ao aeroporto. Estava ficando louca. Falávamo-nos com frequência por telefone, mas era caro e ele não tinha linha em casa. Também me enviava cartas. Através dela, soube que ele tinha aprendido a cozinhar tortillas – iria um dia fazer para mim -, que as chuvas incessantes continuavam e que o espaço vazio na sua cama incomodava-o cada vez mais.
               
Não respondi nenhuma carta. Não tinha estômago. Já era difícil falar com ele no telefone, imagina registrar tudo aquilo que sentia? Estava seca, tal como o tempo em João Pessoa. No Natal daquele ano, recebi através do carteiro uma caixa de chocolates belga, com um cartão que dizia, entre outras palavras, como tudo lá lembrava a mim para ele, e sobre como ele sentia a minha falta. Comi os chocolates com a mesma avidez que rasguei o cartão em pedacinhos. Se o modo como nos relacionávamos naquele momento fosse chuva, eu era a garoa, e ele a tempestade.
Logo após o ano novo, decidi que era hora de me libertar de algumas amarras. Me permiti sair, beber com amigos, acompanhada de uma sensação de liberdade que não sentia há meses.

Conforme setembro chegava, as coisas melhoravam entre nós. Sempre fora assim. Ele ficava mais carinhoso, eu mais aberta.
“Quer um pouco de sopa de abóbora? A Ângela ontem congelou um pouco para nós.” – disse, desvencilhando-me do seu corpo.
“Você bem sabe que eu não recuso nada que a Ângela faça!”
“É, bem sei! Por isso que você não reclamou da minha ausência durante esses meses todos que passamos separados dessa vez!”, brinquei.

“Queria te fazer uma surpresa”, ele me disse, entre risos, quando eu abri a porta da minha casa. Era carnaval, e ele aparentemente combinara tudo com meus pais.  Pisquei duas vezes, incrédula.
“O que foi, não gostou? Não vai me dar, ao menos, um abraço?”, suas janelas me encaravam, um par de gêmeas semicerradas.
Naquele momento, entretanto, ficou claro para mim que não era a distância que estava complicando nosso relacionamento. Eu era. Já não o queria. Todo o seu carinho e cuidado, não eram pra mim. Combinavam com o meu eu galego, não com o meu eu brasileiro. Como dizer isso? Como confessar que, em todas ligações que fingi não estar em casa, a Ângela, nossa velha empregada, me acobertara? Santa Ângela. Como dizer que já tinha o carnaval todo programado com as meninas: as praias, as festas, as fantasias?
Abracei com força, como se aquele ato pudesse ser capaz de eliminar qualquer sensação negativa. Eu o amava há dois meses, havia mudado tanto? Senti calor, mas acho que era da estação.
Ele instalou-se em minha casa, e tentei continuar o que fora interrompido na Espanha. Tinha apenas dez dias para curar aquela relação. Íamos juntos para todos os lugares. Apresentei ele à minha família, aos meus amigos.  Porém, ele também começou a mudar. Já no segundo dia, estava mais calado e introspectivo. No terceiro, quase não tínhamos assunto. E no quarto, começou a ciumar de meus amigos. Os dias estavam cada vez mais áridos: a discussões eram cada vez mais agressivas e calorosas, e os motivos, os mais tolos possíveis.
Terminamos. Um dia antes dele regressar à Espanha, trocamos acusações horrendas e decidi, em prantos, que não queria mais aquilo para mim. Ele não discordou. Saiu e não regressou mais até o momento do voo, para se despedir de meus pais.

Trouxe a Ângela para a Espanha depois de uma de minhas temporadas no Brasil. Quando eu era ainda uma criança, ela contava-me todas as noites histórias de princesas que viviam em castelos europeus. Decidi que ela deveria ter a oportunidade de visitar seus sonhados castelos.
Costumava ir para casa todos os anos em junho, para visitar meus pais, resolver pendências no consulado e na faculdade. Demorava, em média, três meses. Era um período complicado para nós, mas diferente da primeira vez, eu sabia que iria regressar, e chegaria junto com as primeiras gotas do outono.

Não tive notícias dele por treze anos. Nesse intervalo, concluí a minha graduação em Geografia, namorei outros caras, saí de casa, mudei de cidade. Segui em frente. Dizem que o primeiro amor nunca esquecemos, mas o meu perdi em meio à minha bagunça.
Em 2006, fui convidada a palestrar pela faculdade que lecionava em um evento internacional em Zurique. Participava de uma mesa redonda sobre o efeito do aquecimento global nos níveis de precipitação de algumas localidades do mundo, quando percebi que era observada. Estava visivelmente mais velho, com um punhado de cabelos brancos crescendo e indícios de futuras entradas no couro cabeludo. Mesmo assim, o reconheci.
     No final da programação do dia, nos reencontramos. Descobri que ele estava ali porque era um dos pesquisadores homenageados do evento. Falei um pouco sobre mim, e perguntei como estava minha querida Espanha. Ele me convidou para um café fora do hotel. Aceitei, sabendo que não conseguiria dizer não. Àquela altura, as lembranças de Santiago já me embalavam. Deus, o que estava acontecendo comigo?

     Ele puxou a cadeira para que eu sentasse, e foi buscar a tigela com a sopa. Adorava a nossa cozinha: era ampla, clara, e, depois da última reforma, tinha uma claraboia. Às vezes ia ali sem motivo, só para observar o céu cinzento.
     “Eu ainda posso me servir, sabia?” , protestei, observando-o de soslaio.
     “Não, não pode” , disse, ao me entregar a comida. Sentou-se à minha frente, e segurou minhas mãos. As gotas de chuva que caiam sobre as telhas cerâmicas proporcionavam uma trilha sonora aconchegante para o nosso jantar. “Enquanto você estiver carregando a minha semente no ventre, será mimada em todos os momentos do dia.”
    
Ao chegarmos à recepção do hotel, vislumbramos o que acontecia lá fora, através das altas esquadrias de vidro. Uma chuva forte caía, amparada por raios e estrondosos trovões em intervalos de tempo regulares. Já não tinha dúvidas do que aconteceria.
     Semanas depois, estava de mudança para Santiago. Meus pais não entenderam quando lhes contei de como havia me apaixonado pelo mesmo homem, e muito menos quando informei que estava de mudança definitiva para a Espanha. Era lá que dávamos certo, só lá. E somente nos meses chuvosos. Era como se água da chuva fosse capaz de purificar aquele relacionamento, renovando-o e levando consigo todas as impurezas acumuladas.


     Estava grávida. Três meses. Descobrimos depois da última temporada de calorosas discussões. As temporadas de inconstâncias teriam, por fim, um término. Logo, ela chegaria para nos curar definitivamente. Ela, nossa garoa.



*Conto final desenvolvido na oficina de escrita criativa, ministrada por Katherine Funke.


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Doces Palavras

Isac era um menino muito levado de seis anos de idade. Travesso, não parava quieto, em casa ou na rua. Até o dia em que descobriu as palavras e se apaixonou por elas. Começou a passar a maior parte do tempo na biblioteca de sua mãe, encarando páginas completamente preenchidas por símbolos que ainda não conseguia decifrar por completo.
Intrigada, sua mãe tentava compreender aquela súbita mudança no comportamento do filho. Dias antes, ele inventava qualquer desculpa para passar a tarde no parque com os amigos, e ignorava os esforços dela, que insistia em lhe ensinar as primeiras letras.
Quando ela comentou com o esposo sobre ao inesperada nova rotina do menino, ele tentou tranquilizá-la: era só uma fase; devia ser a filosofia da escola finalmente fazendo efeito; e, afinal, porque ela estava reclamando? Não era aquele o seu sonho? Oras!
“Mãe, qual a diferença entre hora com H e ora sem H?”
Era a primeira vez que ele lhe perguntava algo espontaneamente, e ela resolveu por fim acreditar na teoria do esposo. Finalmente seu filho mostrava-se interessado pelas palavras, embora ela não soubesse o que despertou nele tamanha ânsia.
“Mãe, o que significa ansiedade?”
Assim, as tardes de jogos de rua deram lugar à incontáveis perguntas e questionamentos, conduzidos pela curiosidade daquele garoto. Isac aprendeu a ler e a escrever rapidamente, e só encontrava os amiguinhos pela manhã, na escola.
“Reunião escolar, dia 18, às oito horas”, Isac leu para a mãe o bilhete que recebera da professora. “Amanhã.” Antes de subir para o quarto e trocar de roupa, fez mais duas perguntas à mãe.
“Mãe, o que é suspensão? E cárie?!”
Seguiram juntos para a escola na manhã seguinte.
“Seu filho”, disse a professora, “está vendendo palavras.”
Ao perceber no confuso semblante da mãe que ela não havia entendido nada do que acabara de dizer, a professora continuou.
“Descobrimos que ele se gaba com os coleguinhas de ter a mãe mais inteligente do mundo. Que cobra uma bala por cada pergunta respondida. Por sua mãe. O que a senhora tem a dizer sobre isto?”
*Conto produzido na oficina de escrita criativa ministrada pela contista Katherine Funke

 
Déa e eu na aula de contos, por K. Funke.
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20 novembro 2013

Assento do meio

“Desculpa, Senhor. O senhor deve ter se confundido.”

Foi o que a funcionária me disse há uma hora.  Eu havia escolhido a poltrona da janela, tenho certeza. Confundido nada. Maldito sistema web e toda essa necessidade descontrolada dessas empresas para venderem bilhetes aéreos. Isso é que é confusão.

Agora, aqui estou. Fileira 07, poltrona B, espremido entre uma jovem de vinte e poucos e uma senhora.  Não estou espremido por elas serem gordas, pelo contrário. Este espaço que é realmente desumano.

Não fosse essa estranha claustrofobia, ainda tenho que ouvir as lamúrias da mulher mais velha. Faz uns quinze minutos que ela julgou-me seu amigo e desde então não parou de falar. Santo Deus! Ela estava na janela, e quem senta na janela não tem direito de reclamar sobre nada, essa é a lei da vida.

Começou reclamando sobre o ouvido. A cada dia, escutava pior. Não, não, os aparelhos não adiantavam, já tentara todos. E o trabalho, quanta gente mesquinha, invejosa e falastrona! “Ora, que coincidência!”, pensei. Mas era sobre o filho que ela mais estava falava agora.

Átila é engenheiro elétrico e, pelo que entendi, aos vinte e oito anos nunca tinha namorado sério. Ela, como mãe, ficava preocupada, claro. Afinal, queria que algum dia, ainda viva, fosse avó. Diana, sua filha, ainda era muito nova para lhe dar netos e, além do mais, ainda não se formara. “Filho, só depois do diploma”, frisou.

Queria tanto que o filho abandonasse a vida de festas e arrumasse logo um casamento, que até passou a ser religiosa. Mas, ah... Se ela soubesse. “Se eu soubesse que seria assim, apagava todas as velas que acendi!”

O caso foi que Átila se apaixonou em pleno carnaval por uma loira recém-chegada na cidade. “Era até simpática no começo, sabe? Quando eu ainda não sabia de tudo.”

Não precisei perguntar ou emitir qualquer som ou sinal de curiosidade para que ela continuasse. Ela falava ininterruptamente.

O único porém da moça, segundo ela, era ter uma filha! Uma menina, de três anos. “Aquele panaca tinha que se apaixonar logo por uma mãe solteira, meu Deus?”

A essa altura, a jovem ao meu lado começou a prestar atenção na conversa, e emitiu um claro e sono sinal de desaprovação sobre aquele monólogo.

Além da filha, descobri que a moça também tinha trancado a faculdade de Pedagogia e estava desempregada. “Era muita falta de sorte concentrada em uma só pessoa”, concluiu.

Eu, calado estava, mudo continuei. Para não ser julgado grosso nem nada, lançava às vezes alguns olhares de compreensão. Comecei a folhear a revista da companhia aérea, torcendo para que a senhora compreendesse que queria alguns momentos só pra mim no voo. Em vão.  Por fim, larguei a revista e tentei desconectar de tudo aquilo que estava ouvindo, só reparando em algumas palavras soltas.

“Ai, meu pobre Átila, rezei tanto para que ele encontrasse coisa melhor”. Foi a última coisa que me lembro de ouvi-la dizendo, quando a moça ao meu lado disse, com um tom frio.

“E agora é esta mesma mãe solteira, desempregada e sem graduação, que acompanha a senhora na viagem da sua cirurgia”.

Ainda bem que eu não emiti, em momento algum, nenhum juízo.
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Esconderijos

Carolina, com o seu jeito espevitado de ser, mais parecia um rapaz. Escalava as árvores do sítio, corria atrás dos porcos rosados, gargalhava rolando pela grama e usava as mãos como talheres, tal como aprendera com Sinhá Paula. Dona Ana, sua avó, tentara de todo jeito fazer com que a neta se comportasse como uma dama, mas aquela tarefa estava custando muita paciência e era de pouco retorno.
Em meados de setembro daquele ano, aqueles cabelos negros e olhos travessos surpreenderam a todos na casa, sobretudo à Dona Ana. Carolina estava mais retraída e comedida, coisa que nunca fora. Passava a maior tempo do dia no quarto, deitada na cama, encarando o teto em um espécie de sonho acordado. Ninguém entendia tão repentino comportamento, pois a menina recusava falar. Construíra uma barreira de isolamento em volta de si. E se identificara de tal forma com ela que era como ela fizesse parte do seu próprio esqueleto, sua própria concha.
Escondeu-se. Porque tinha que se apaixonar? Não já estava ela, desde os oito anos de idade, prometida à outra pessoa?
Por mais que lhe perguntassem, não podia contar aquilo a ninguém. Não entenderiam que, quando era apenas uma criança, um velho moribundo profetizou seu casamento com um menino que acabara de conhecer. Não entenderiam os breves, o camafeu e nem as juras caladas.
Decidiu que ia ficar ali, camuflada, o resto daquele fim de semana. Domingos eram dias sempre calmos, sobretudo em Paquetá, e decidiu que não daria chances ao acaso de estragar aquela paz.
Adormeceu.

O Sol já tinha se posto há muito quando Augusto decidiu ir embora. Esperou cicno horas além do combinado, com a tola esperança de que ela aparecesse. Caminhava com um andar triste, quase desacreditado, daqueles que só quem já esperou em vão entende. Pressionou com força o velho botão de esmeralda. Pela primeira vez, tivera a impressão de ter achado o seu camafeu.
          A balsa atracou rapidamente, tal como as oportunidades foram perdidas. No curto trajeto de Paquetá até o Rio de Janeiro, Augusto adormeceu e sonhou com o velho moribundo, a garota de oito anos e a profecia que buscava.

*conto livremente baseado no livro "A Moreninha".
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13 novembro 2013

Vamos marcar


Era isso que ela sempre repetia em nossos encontros. Não importava se estávamos nos vendo naquele momento, acompanhadas por uma xícara de chocolate ou por uma boa taça de vinho, sempre havia a exagerada preocupação com os próximos que viriam. “Vamos, claro.” Respondia, como um mantra. “Mas é sério, viu?!”. Sério, sempre era sério. “Com certeza, temos que nos ver mais vezes!” Uma das minhas táticas mais antigas consistia no ato de concordar, que descobri por vezes evitar maiores delongas. “Você promete? Promete?!” Não importava quantas vezes eu assentisse, essa pergunta sempre reaparecia ao longo da tarde. Quem a assistia pela primeira naquele momento, julgava-a uma pessoa de fácil convivência, quem sabe até carente, mas isso somente por excesso de doçura. Doce. Mal sabiam que aquela pergunta nos acompanhava em todos os encontros.

Para alguns, comentar sobre a vida pessoal, trabalho e atualidades com os amigos poderia ser uma tortura. Mas, para mim, era ouvir aquela frase. Gostava de viver momentos, e ela parecia contente somente com a possibilidade de tê-los. “Vamos marcar.” Ela disse, mais uma vez, no final da carona. Enchi a boca de ar e impedi que certas palavras destrutivas abandonassem minha mente. “O que foi?” Nada. Resolvi que uma boca vazia combinava com aquela relação murcha. E o quão insano era continuar regando-a. Sabia que ela estava esperando a minha ligação – tal como sempre - , e eu, eu sabia que ela nuca ligaria. Desmarcamos.

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11 novembro 2013

Uma maçã e inúmeros copos de água


Penso que quero ser como X. Acredito que o conheço bem para ousar ter tal pensamento, embora tenha plena certeza de que ainda existem nele verdades e hábitos desconhecidos por mim.
X não faz parte de nenhuma família real, embora o nome pomposo induza a tal pensamento.  Na verdade, ele quase que não possui nenhuma família de sangue muito próxima, já que seus pais se separaram quando ele era apenas um menino, e a maioria de seus parentes se manteve distante quando ele e suas irmãs mais necessitavam de amparo.
X C. A. tem em torno de 30 anos, nem tão velho e nem tão novo assim. Sua mãe, que tinha fixação por nomes estrangeiros compostos, teve mais três filhas além dele: S. D., G. I. e S. G., nessa ordem. De origem mineira, a família morou por muito tempo no interior do Rio de Janeiro, antes de se desfazer.
Quando menino, na escola, nunca foi o primeiro da turma. Tampouco fez aulas particulares de inglês – essa e outras regalias eram restritas às meninas da casa. Raramente chegava ao pódio nas competições da natação e karatê.  Com as garotas, era uma tragédia: magro e ossudo, não chamava a atenção de nenhuma delas – e mesmo que algum milagre acontecesse, não tinha dinheiro nem para pagar uma bala na cantina do colégio, muito menos para as entradas do cinema.
Eu sei, é complicado entender porque então essa estranha vontade de ser como ele.
O vi pela primeira vez há uns quatro anos, quando fomos apresentados por amigos em comum em uma das minhas andanças por terras cariocas. Corria então o ano de 2009. Em 2010, nos tornamos mais próximos. E mesmo nos falando com frequência, seja por internet ou por esporádicos encontros, ainda não consegui decifrar quem de fato é X, nem a verdadeira bagagem que ele carrega consigo.
Sei o que ele faz da vida: é estudante profissional. De tão profissional, já está finalizando o seu doutorado em Engenharia de Transportes. Trinta e poucos e doutor, imagina?! Ele também corre. Diariamente, às seis da manhã, você pode encontrá-lo na orla de Copacabana, sempre com o mesmo conjunto preto. Após essa atividade, ele realiza seu habitual café-da-manhã, composto apenas por uma maçã e inúmeros copos de água.
Uma coisa é simples dizer sobre ele: é disciplinado. Sabe que a disciplina é uma virtude fácil de ser quebrada, e por não gostar de quebrar acordos ou votos, preza por ela. De tão disciplinado que fora toda vida, entrou na faculdade, mesmo com tantos problemas em sua família. Não era do seu feitio desperdiçar oportunidades: mudou-se de casa, de cidade, de conceitos. Estudava em pé, frequentava lan houses, alugava livros, e finalmente graduou-se.
Quando você tiver a oportunidade de encontrar com ele, saberá exatamente a sensação que sentia no início de nossas conversas. Primeiro, uma manifestação banal de admiração. Posteriormente, uma ligeira inveja daquele modo simples e determinado de ser. Não se sinta intimidado se achar que ele é melhor do que você, porque ele provavelmente é, e isso não é necessariamente ruim. Ele é claramente superior a pelo menos 80% dos seres humanos que habitam este planeta, ele é claramente de uma forma que eu também queria ser.
Primeiro, ele está sempre disponível. Pode parecer coisa pouca, mas são raras as pessoas que hoje em dia possuem tempo para isso. Ajuda um grupo com muitas velhinhas em tarefas heroicas como comprar passagens aéreas por internet. Lidera serviços recusados por outros. Faz longas viagens só para que o motorista, algum amigo ou conhecido, tenha com quem conversar e revezar o volante. 
Depois, ele nunca está de mau humor. Mesmo dividindo apartamento com estranhos desde que passou a morar no Rio, mesmo vivendo apenas com a curta bolsa do doutorado, ele sempre tem um sorriso para oferecer. 
Há diversas outras coisas que eu poderia contar aqui para reforçar a personalidade única de X. Ele quase não fala, a não ser quando já possui devida intimidade com a pessoa. Mas é um poço de educação. Não dança, a não ser que seja valsa. Não canta, a não ser que seja para a mulher que ama.
Tenho muito mais que aprender sobre X, mas o pouco que descobri através da minha característica petulância me faz querer descobri-lo mais a cada dia, absorver, como que por osmose, um pouco da sua constância, disciplina, silêncio e resignação. X sabe aceitar o que o destino lhe reserva, mesmo não despejando toda a sua confiança no acaso. Apesar de ter infinitas possibilidades à sua frente, caminha sem afobação, observando a paisagem e sentindo o vento cortar-lhe à face.
Ao vê-lo caminhando de tal forma, sinto-me impelida a acompanhar seus passos. 

* Escrito no dia 20 de outubro, na oficina de escrita criativa: contos, ministrada por Katherine Funke.
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O roubo

             Lili Moreira Sá tinha onze anos e como a maioria das crianças, brincava de ter preferências: amigos, cores, objetos, lugares. Falando neste último, o lugar favorito dela ficava no final da rua das Pitangas, na pequena cidade de Poty, dois quarteirões após a casa de sua avó Ana.
                Ela gostava de ir naquele local especialmente no final do dia, quando Sol coloria o céu antes azul anil com tons quentes.
                No meio de tantas pessoas perambulando pelos vazios de verdes, ela gastava seu tempo com um tipo em especial: com aquelas que estavam acompanhadas por um livro. Velho, novo, bíblia ou auto-ajuda, para ela essas descrições não importavam. Costumava passar minutos, ou até mesmo horas estudando aquelas pessoas.
                Até que o Sol, que antes lhe queimava a pele, começava a esfriar. Sabia, então, que era chegada a hora de agir. E, sobretudo, que o tempo era curto.
                Posicionava-se estrategicamente, provocava propositalmente um ruído distante ou qualquer outra distração e ZAZ, roubava o livro. Saia sorrateiramente, tal como uma profissional.
             Lili fingia-se acreditar que tinha com essas pessoas um acordo velado: se as pessoas podiam usufruir sem a sua permissão do seu lugarfavoritonomundotodo, a ela era permitido, em consequência, levar as palavras delas.
                Enquanto os leitores levavam consigo, inconscientemente, uma parte de Lili e do seu lar, a garota ficava também com uma parte delas.


* Escrito no dia 26 de outubro, na oficina de escrita criativa: contos, ministrada por Katherine Funke.
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29 outubro 2013

Metamoforse

Maria costumava dizer que um dia iria mudar de vida, tudo iria ser diferente. Como nada de novo lhe acontecia, acreditava que aquela mesmice era o fardo de um nome tão ordinário. Decidiu, então, transformar-se em novas mulheres: acordava Tereza, almoçava Cecília, tomava chá Beatriz e dormia Jordana. Apesar dos novos nomes, apercebeu-se sempre a mesma, sem graça e sozinha. Por fim, cansou-se de tudo isso e decidiu ser apenas Maria.
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23 outubro 2013

Coisas duráveis




                Volta e meia escuto minhas tias mais velhas reclamarem que as coisas hoje em dia são totalmente desprovidas de qualidade.  As panelas de antigamente. Ai, como o cobre durava! As peças de roupas, todas costuradas pela vizinha, eram usadas por todos os irmãos - e olhe que meus avós tiveram 16 filhos. Os utensílios domésticos, que eram passados de pai para filhos como herança. É, ainda temos alguns aqui, assim como toalhas e lençóis incrivelmente bordados à mão.

Porém, nenhuma das minhas velhas tias jamais observou - ao menos perto de mim - o que mais caiu de qualidade nessa terra de loucos: as relações humanas.  Casamentos que outrora duravam quarenta ou cinquenta anos foram substituídos por relações frágeis como um nó dado por uma criança. Hoje parece que qualquer coisa pode ser substituída facilmente através de uma simples ida ao shopping, inclusive pessoas. Ao sinal de qualquer desentendimento, as pessoas preferem se afastar e levarem suas fingidas vidas.

Ainda não conheci ato tão bonito quanto o de se desculpar. De correr atrás. De mostrar que se preocupa. De que aquela pessoa, seja sua mãe, amiga, namorado, ou até mesmo um vizinho, é importante pra você, que você se interessa pelo modo que ela sente e enxerga cada acontecimento. Reconhecer o erro, mesmo que esteja certo. Eu muitas vezes já dei minha cara à tapa nesse sentido, tola romântica que sou. E quão não foi a surpresa ao observar que, muitas vezes, aquela pessoa que eu tive o cuidado de dizer me perdoa pisou também na bola comigo e simplesmente ignorou o fato?

Sou boba, eu sei, já me convencieram disso. Por acreditar que as pessoas deveriam perceber que não somos de plástico, substituíveis e sem emoções, como os produtos que lotam prateleiras por aí... Somos, em verdade, como o papel. Uma vez usados, temos em nós marcas que nos seguirão por toda a vida, positivas ou negativas. Porém, mesmo as que forem negativas podem ser alteradas, seja com um corretivo, com um borrão malfeito de grafite (“ah, vamos deixar isso pra lá!”) ou, em casos mais complicados, em processos de reciclagens.


O fato é que somos humanos. Estamos em constante processo de mudanças, evolução. Sabemos ferir, mas também podemos aprender a pedir perdão e a desculpar os outros. E por desculpar não quero dizer esquecer, apenas seguir em frente sem mágoas. Talvez é esta coragem que falte aos transeuntes mais novatos neste planeta, coragem que talvez as minhas tias poderiam ensinar, mas até elas mesmas se esqueceram de como até mesmo as relações humanas eram, antigamente, eram mais duráveis. 
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22 outubro 2013

"Sdds"



Na era da tecnologia, da informação e das redes sociais, somos cada vez mais estimulados a correr contra o tempo, a responder e-mails e mensagens no impulso, compendiar encontros. No vício, diversas palavras da língua portuguesa já foram abreviadas e suas siglas são de conhecimento comum: vc, td, mt, qr, etc. Você poderia me perguntar se eu gosto dessa tendência. Defensora da boa escrita e dessa língua ímpar, afirmo sem hesitar que não. Acredito que tudo é mais bonito quando completo, até mesmo as palavras.

Mas isso não quer dizer que eu não me utilize desses recursos. Como usuária assídua da internet, sou vítima sem perdão desses e de outros vícios que não devem ser mencionados. Escrevo como uma desvairada, que mistura palavras longas e formosas, para que estas não fiquem empoeiradas nas gavetas de minhas memórias, com palavras curtas e sintetizadas, na esperança de que aqueles cinco minutos sejam suficientes para responder as novas 137 mensagens no whatsapp.

          
Foi através desse aplicativo que observei o uso constante de uma nova abreviação: “sdds”. Ai, gente. Tá aí. Se tem uma palavra que eu não consigo abreviar é “saudade”. Já tentei, já até digitei, mas sempre corrijo antes de enviar, e acabo perdendo mais tempo do que se tivesse digitado correto desde o início.

Saudade é uma coisa tão brasileira, tão calorosa, tão única e imensurável, que é impossível resumir em quatro letras ou em duas consoantes. Será que ali vai caber tudo que aquele verbete almeja sintetizar? Se é pra sentir uma saudade simplificada, melhor sentir “falta”. Saudade é  m a i o r. É como a “paciência”, do Lenine.


O cotidiano já nos obriga a apressar tanta coisa, a ser mais razão e menos emoção em tantas situações, mais práticos... Sufocamos e calamos tanta coisa dentro de nós. Será que nem permissão temo para escrever saudade, como todas as suas letras, sons e significados?

Saudade é palavra latina, intraduzível, inexplicável. É vocábulo que nos abraça, pra ser sentido  por completo. E EU ME RECUSO a simplificá-la. Recuso-me a senti-la pela metade, ligeiramente, sem alma. Vai saber se teremos tempo para dizê-la ou senti-la mais uma vez... vai saber.



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Começando... um conto.

                Hey, gente! Quanto tempo, hein?! Vão perdoando o sumiço... Mas nos últimos meses minha vida passou por momentos insanos, que envolveram:  1. TFG de arquitetura; 2. TFG; 3. TFG; (...) 54. Colação de grau; 55. Solenidade; 56. Comemorações; 57. Ainda não caiu a ficha.
                Após onze semestres de faculdade, muitas noites em claro, seis meses na Espanha, pensamentos que oscilavam entre amor e ódio, finalmente o ciclo se fechou. Agora sou Arquiteta e Urbanista diplomada com láurea (UHUL!) pela UFBa. AMÉM!
                Não vim aqui para falar de como foi gratificante concluir este curso, nem para falar dos meus projetos futuros dentro da minha graduação. Quero somente comunicar que agora que as coisas parecem estar voltando novamente aos eixos, vou apertar o play em algumas coisas que ficaram em stand by na minha vida – acredite, foram muitas.
                Uma delas foi a escrita. Empolgada agora com essa onda de depressão pós-formatura + tempo livre, me inscrevi em uma oficina de contos para ver se me empenho mais nesta arte e se aprendo um pouco sobre os mesmos e suas facetas.
                Vou compartilhar abaixo com vocês o conto que escrevi hoje rapidamente na aula, na minha dinâmica de apresentação. Na verdade, como comentado na aula, não foi bem um conto, pois: 1. não tenho experiência com os mesmos; 2. ficou parecendo mais a introdução de um romance. Culpa desse gênero que não me larga.
                Na aula, tivemos que escolher uma palavra e iniciar uma história. A minha palavra foi: dedicação. Esta foi apenas a minha primeira tentativa, escrita em 10min. Ao longo das semanas vocês poderão acompanhar, aqui no blog, a minha evolução.
                Enfim, sem mais delongas, eis aqui o bendito:



DEDICAÇÃO

   Os dedos frágeis de Ana percorriam com nostalgia os embolorados porta-retratos da cristaleira de Aurora. Na primeira imagem, ainda colorida apenas por tons em escala de cinza, lá estava ela aos onze meses, ensaiando seus primeiros passos.
   O olhar, curioso como o de um felino, já marcava a sua personalidade, e denotava a recusa em caminhar segurando a mão da mãe.
   A segunda fotografia trazia a menina aos seis anos, em uma daquelas antigas e típicas fotos escolares. O mesmo olhar, a mesma sede. Você aprendia tudo num pulo, observou Aurora.
   Em seguida, aos onze, como vencedora de um projeto para a feira de ciências. O que a fotografia não revelava a quantidade de tardes que ela se empenhou naquele trabalho.
   Passado os anos, Ana cresceu. A sede por coisas novas também. Tinha aprendido que melhor do que questionar, era procurar novas perguntas sem respostas.
   Ana, a neta dedicada de Aurora. Ana, a aluna laureada do curso de Química. Ana, que mesmo em tempos Porém, esta mesma Ana, que tem resposta para tudo o que lhe perguntam, ainda tem perguntas que ninguém buscou responder. É, Ana. A vida tem dessas coisas. 

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Editado por Agnes Carvalho. Imagens de tema por andynwt. Tecnologia do Blogger.

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